Síndromes de Predisposição Familiar para Cancro. O que são?

O cancro é na sua maioria das vezes um fenómeno esporádico que resulta do envelhecimento e da interação genoma ambiente, com consequente acumulação de erros limitados a um conjunto de células. Este tipo de alterações, não estando presentes em todas as células (e não estando nas células germinativas: óvulos e espermatozoides) não foram herdadas, nem serão transmitidas à descendência.
Para alguns tipos de cancro (exemplos: cancro da mama na mulher, cancro da próstata no homem) estão recomendados rastreios aplicáveis à população em geral a partir de determinada idade, para os quais todos devemos solicitar informação e vigilância junto aos nossos médicos assistentes.

Em menos de 10% dos casos, o cancro surge no contexto de uma síndrome de predisposição para cancro familiar. Resultam de mutações germinativas em genes chave para a tumorogénese (por exemplo: onco-supressores), habitualmente herdados de forma autossómica dominante e com penetrância incompleta embora alta (que os distinguem de variantes genómicas com aumento de suscetibilidade para cancro, mas penetrância baixa). Assim sendo, o risco de recorrência de doença na descendência de indivíduos afetados, doentes e com mutação identificada é inferior a 50% (resultado do risco de 50% de herdar a mutação x probabilidade < 100% de desenvolver a doença mesmo tendo a mutação).
Estas síndromes apresentam-se como famílias com uma alta incidência de cancro, atingindo mais do que uma geração de um mesmo lado da mesma, em idades jovens, múltiplos, atípicos, com uma agregação específica (por exemplo: cancro da mama no homem e na mulher, cancro da próstata no homem, cancro do pâncreas, melanoma, para o gene BRCA2).
Na suspeita de uma síndrome de predisposição familiar para cancro, está indicada a realização de teste molecular, desde que dele resultem alterações à vigilância, tratamento, prognóstico do utente. Em algumas síndromes é realizada uma probabilidade pré-teste de deteção de mutação que justifique a realização do mesmo.
O estudo molecular familiar deverá ser realizado primeiro na pessoa identificada com cancro em idade mais jovem – que passará a ser o caso index. Um estudo molecular negativo no caso index não nos permitirá excluir, com certeza, uma síndrome de predisposição para o cancro (uma vez que a taxa de deteção dos testes é inferior a 100%). Um estudo molecular positivo permitirá a realização de estudos familiares e identificação de portadores de mutação (aos quais serão oferecidas opções de tratamento e medidas profiláticas disponíveis) e de não portadores (sem risco aumentado de cancro, relativamente à população em geral).
Estes estudos, quando preditivos (realizados em pessoas saudáveis), só podem ser realizados a indivíduos maiores de 18 anos (desde que não hajam terapêuticas/medidas profiláticas válidas abaixo dessa idade – consoante a síndrome), mediante consentimento informado e em consultas próprias de aconselhamento genético.